(uma saga capitalista através dos séculos)

 

Photo by Craig Heimburger, travelvice.com

Séc. XV

Quando veio ao mundo o filho do Rei
já veio dizendo ao que veio.
Trazia coriscos invisíveis nos olhos
e puas daninhas na língua,
sem corpo, face ou alma…

Séc. XVI

“Aonde estávamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Não estávamos cuidando dos brotos de arroz,
que antes mesmo do nascimento do filho do Rei já não tínhamos terra”
“Então, o quê fazíamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Íamos devagar, cansados, com fome e com sede,
e não chegamos a tempo de homenagear o nascimento do filho do Rei”
“Não há perdão nos negócios do Reino… é por isso que nos mataram.”

Se já eram fios de outros que trançávamos
e sementes de outros que plantávamos
(que plantações terão crescido? Que peças terão costurado?)
nosso desgosto já era por demais amargo,
ainda assim voltamos para nossa terra…
voltamos sob nossa terra, sob o domínio do Rei.

Séc. XVII

Quando pequeno, brincávamos no portão de casa,
nas terras que eram de meu pai.
Tanto brincávamos que não dava tempo de crescer a grama.
Brincávamos ao dia, brincávamos à noite,
e foi numa noite de alta lua
que pai partiu para o Reino, sob ordem do Rei.
Só sabia que era a trabalho, nada mais —
e trabalho pai não temia.

Depois foi a vez de mãe… partiu em busca de pai.
Pedi que mandasse notícia quando o encontrasse…
Minha dor em ver o capim crescer no portão
lembrando os anos avançados…
o Reino chegando cada vez mais perto,
quase invadindo meu coração, e sem trazer notícias.
Então, parti, nu, para o Reino, suplicar ao Rei:
“Amontoa meus ossos e os que me pertencem
num sepulcro junto à árvore da minha casa e grave:
‘Família sem nome e sem fortuna’ e ergue nele
o arado comum a todos os meus amigos.”
Mas o Rei não tinha corpo, face ou alma
e nossos ossos (não-polidos) não foram amontoados,
e amarelaram de tanto outono.

E algumas fogueiras se ergueram,
iluminando, com suas chamas,
alguns corpos, algumas faces, algumas almas…

Séc. XVIII

Creio que a vida será mais fácil
agora que não preciso galgar árvores
para vigiar a terra de bárbaros.
Toda terra e toda posse é presente nosso ao filho do Rei
(embora não daríamos nossa terras e nossas posses ao filho do Rei).

Nosso espírito repleto de afição não teve escolha…
nossos amigos já não conversam, não pedem mais o arado,
não falam sobre a plantação (que não são deles),
não conversam com suas mulheres (que às vezes são deles),
não conversam mais sobre nada (isto sim lhes pertence).

Algumas fogueiras (aquelas) ainda queimavam…
fracas labaredas aqui, outras mais fracas ali,
iluminando — embora menos — com suas chamas
poucos corpos, poucas faces, poucas almas…

Todos no Reino estavam ficando sem corpo, face ou alma.

Séc. XIX

O sol parece não querer brilhar mais no Reino,
e as trevas se tornam mais intensas que a luz.
O Rei mandou comprar um sol para seu filho,
e os privilegiados desfrutam o calor deste dinheiro.
Dizem que este é o único sol existente, por isso não brilha mais no campo;
terra morta separa o campo do castelo do Rei,
e é só isto que nos sobrou: invejamos nossos animais
que não sabem sofrer com o coração.
“Somos tuas almas também, não se desesperem!
Não há dor que não seja pouca ao filho do Rei”

Mas volumosa massa não pode sucumbir
e a intensidade desta fogueira e suas brasas, reerguem,
por braços fortes, a luz, que ameaça voltar e iluminar todo o Reino…
mas é impenetrável o castelo, onde os privilegiados
ainda cerram seus olhos fundos entre velas indolentes.

Séc. XX

Não contente com o sol, pela sua grandeza,
quis também a Terra, nossa alteza,
e esforços não foram medidos para que ela toda
coubesse no baú de brinquedos do filho do Rei.

E de posse do novo brinquedo, gargalhava o filho do Rei,
diminuindo terras, aumentando mares, queimando florestas,
em busca de novas emoções no seu brinquedo novo.
Peças caídas, afogadas e queimadas,
o que representam frente ao divertimento do filho do Rei?

“Não deve existir união (já que a Real não existe).
Não deve haver diversão (já que a Real é enfadonha).
Vizinhos e amigos, jamais (o filho do Rei não precisa disso).
Tudo deve girar em torno do Trono (expressão máxima da boa-ganhança).”

E pessoas eram tratadas como animais,
e na queda de uns, muitos haviam para se levantar.
Animais, pessoas e coisas…
nada era algo enquanto durasse o jogo do filho do Rei.

As trombetas anunciavam,
e o povo entorpecido espalhava a notícia:
“Submetam-se ao filho do Rei, ele é a esperança.
Esqueçam seus valores, suas posses, seus sentimentos
e abracem a vontade do filho do Rei.”

Mas o Reino se tornou maior que a esperança,
e à porta de todos não bateu a boa-venturança,
e os portões do palácio se fecharam (dando a impressão de abandono).
Só uma luz, no alto da torre, mantinha-se acesa…
o filho do Rei continuava seus jogos
cada vez mais sozinho… o grande vencedor.
Os outros? Meras peças de estratégia…
peões, cavalos, bispos e torres tombados em torno do Rei.

E o filho do Rei acumulou suas vontades, suas malícias, suas bonanças…
Mas não havia o que fazer com elas,
e as coisas se tornaram difíceis e custosas,
e o Rei e seu filho ficaram sozinhos,
com o mundo prostrado aos pés do trono.

E daquela fogueira que só brasa restou,
um vento de tão forte fúria labaredas favoreou
que logo, em chamas intensas se tornaram,
e todo o Reino já morto, o palácio, o Rei e seu filho enfermo
foram envolvidos pelo fogo daquele inferno.

Séc. XXI

Agora sim, o nada se consolidou… apenas cinzas,
levadas pra cá e pra lá pelo vento calmo.
Foram muitos anos até que a primeira planta brotasse,
não se sabe de onde… muito menos de onde soergueu aquele homem,
já com uma enxada na mão a mexer a terra, e depois outro homem, e outro…
e cresceram plantas, ergueram-se animais, ergueram-se gente,
construindo casebres, juntando-se em aldeias,
vivendo da terra, da água e do ar.

Até que um desinfeliz oferece trocar um porco por três enxadas…