Ou “… agora e na hora de nossa morte…”

O quê, nesta vida, é mais importante do que se preparar para a morte? Falando assim, desconectado, soa mórbido, fatalista, como se não fizéssemos nada na vida a não ser nos preparar para morrer, mas o contexto é de que precisamos nos preparar para a morte; financeiramente, emocionalmente, psicologicamente… faz parte da vida. Aquela mesma vida, do dia-a-dia!

Pensando nisso, sobrolho levantado, o lábio de baixo descaído numa espécie de desgosto, levo a mão à cabeça para (re)aperceber-me de que o cabelo já se fora. Tiro os óculos de leitura e limpo-os com toda a consciência, como quem lava o vidro de uma janela para que possa ver melhor através. Levanto me com dificuldade – depois de muito tempo agachado, cuidando das plantas, dói joelhos, dói costas. Que seja leve, com sorte suave, sem sentimentalismos…

De coisas importantes, que falem os outros. Eu sempre cometi poesia. Eu sempre contei histórias! Vou escrever minhas coisinhas, enredado em escrúpulos gramaticais e lexicais, fumando um charuto ocasional, acompanhado de um bom bandy. E depois, remoer, com alguns privilegiados, os escritos ainda não terminados, apreciando um bom vinho. Coisa de escritor!

Isso aprendi com Arnaldo, cujos escritos eram longamente maturados em coletivo. O coletivo justificava-se pelo fato de toda a Pyndahyba ser feita em coletivo. Toda a gente metia o dedo em tudo! Éramos um grupo de gentes que se reunia no Invicta, boteco onde tínhamos uma mesa cativa, e nos restaurantes dos arredores da Paulista e Rebouças, incluindo o Consulado Mineiro, na Benedito Calixto, onde fazíamos degustações etílicas ao final de algumas tardes de sábado, em meio a discussões políticas e literárias.

A sede da Pyndahyba sempre foi ou em boteco ou em livraria. Feliz quando conseguimos juntar os dois, uma vez ali na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O fulano colocava mesas para a gente sentar na frente da vitrine da livraria, e tinha o bar ali ao lado onde pegávamos uns comes-e-bebes. Muita gente se reunia ali, gente da pesada. Depois ficou chato, a Cultura cresceu, e resolvemos procurar outro lugar. Pingamos um pouco de lugar em lugar até chegarmos ali na Livraria Azteca Fondo de Cultura, nas Perdizes. O fulano também tratava a gente muito bem, armava mesa e muitas vezes servia cerveja e petiscos de graça.

Onde quer que fosse, quem era quem na literatura marginal passava por lá – menos aquele outro grupo do qual Arnaldo tinha rincha, embora Souzalopes navegasse nos dois. Toda a gente tinha uma opinião e toda a gente a dizia alto. O único critério para ter opinião era ter qualidade, e Arnaldo sempre vigilante e profundo conhecedor da mediocridade e do oportunismo que verberava por todos os lados – inclusive na própria Pyndahyba, tinha o verbo-peixeira sempre afiado! Nas reuniões pre-publicação, o coletivo era constituído por um grupo de pessoas que se portava como uma família, e Arnaldo era o patriarca, juntamente com Souzalopes e Roniwalter. Um patriarcado de qualidade!

Tinha também o Marco Reis, o Marcão, que era o mais novo da turma, até eu chegar! “Você é o mais novo, então sua opinião não conta”, brincava. Nos últimos anos de Arnaldo, éramos um grupo de amigos aos berros nos almoços de sábado na casa do Roniwalter. Por vezes Souzalopes cozinhava – lembro bem das galinhas… a cabidela, ao molho pardo e no quiabo, que ainda estou para provar melhores. Se não fosse Souzalopes, ninguém mais cozinhava, e a tarefa ficava para a cozinheira de Roniwalter, que preparava tudo e deixava lá, para quando cansássemos de beber e quiséssemos comer!

Bebíamos e comíamos até fartar. Uma vozearia argumentativa e feliz, palavra foleira. Lembro-me disto. Lembro deles que já se foram… lembro do Arnaldo, lembro do Souza, lembro do Marcão. Sempre que lembro umedece-me os olhos.

A Pindaíba tem sua história lá nos anos 70, quando poetas, contistas e artistas plástico se uniram em torno do que chamaram de “Núcleo Pindaíba. Foram muito ativos entre 1974 e 1984, e convencionaram a identificar como literatura ou poesia marginal. Depois dessa fase, embora seus membros continuassem ativos, dissiparam-se como grupo.

Sem o cosmopolitismo do Arnaldo, teria sido impossível reunir aquele grupo selvagem de pessoas que não obedeciam a nada nem a coisa nenhuma. Juntamente com Souzalopes e Roniwalter, outros cosmopolitas, uma nova Pyndahyba estava a renascer, no início de 1994.

Foi o Nelson Cajuela, o Cajú, quem me chamou. “Olha Edu, tem um grupo de amigos poetas que eu acho que você ia adorar conhecer. Eles são a Pindaíba”. E foi assim que, munido de alguns poemas, fui numa noite de quinta-feira, depois do expediente de Técnico em Informática, encontrar os tais Pindaíbicos. Desse encontro surgiu uma amizade, e o ingresso no grupo, revamped as Casa Pyndahyba. Desses encontros, sairiam os livrinhos artesanais “Amigos” (1994), e “Contra-Lamúria” (1995). Ambos com muita gente ilustre!

A morte de Arnaldo em 2004, de Souzalopes em 2012 e de Marcão agora em 2021, é um bocado da minha morte também. Eles foram um bocado da minha vida, não só literária mas também aquela, do dia-a-dia…

“… Amém!”