A Time of Contemplation – Michael Chomse, Oil on Canvas
Todos precisamos de um teto
— direito básico — mas
uma casa feita de sapê
     pode cair
           a qualquer
               momento.

O sofrimento que marcou-me a vida
abriu-me também o coração,
por isso recorro tanto ao contraste…
mas de súbito, dirão de mim:
     “… uma pessoa legal,
     mas será que cumpre,
     tudo o que prega?”
E, todavia, continuaremos amigos.

Por isso digo: às crianças, as grandes virtudes
(
     a sabedoria,
     a justiça,
     a moderação,
     a coragem
),
e não as pequenas
(
     a astúcia,
     o orgulho,
     a poupança,
     a diplomacia
),
que são facilmente adquiridas.
As grandes, porém, embora instintivas,
precisam de estímulo, já que não trazem
qualquer recompensa pessoal — você não é o foco!

Precisaríamos ser pais sobre-humanos,
— nietzscheniano mesmo —
que não apenas falassem grego,
mas que falassem sobre os gregos
     — e sobre os chineses e os hindus —
e se transformassem em gregos
           míticos
                 divinos
seres que não simplesmente se inventem,
que não sejam uma decisão da vontade,
e sejam, antes, a própria existência!
     uma possessão,
           um entusiasmo…

Mas aconteceu que ao entusiasmo sucedeu
novamente aquela vontade, ainda mais forte
e decidida, fechando o conhecido ciclo vicioso,
e a palavra, que primeiro era magnífica,
agora se tornou quebrada
     abrupta,
           íngreme
(
     e se até os outros gregos, realmente gregos
     — e chineses, e hindus —
     também naufragaram no mar das vontades,
     justo seria dizer que o custo do entusiasmo é alto,
     face a um mundo tão pouco entusiasmante
).

Quando contemplamos à nossa volta
o espectáculo do mundo, sabemos que
estamos já dentro de um simulacro
hostil e convidativo, que alguém inventou,
mas continuamos a nos encontrar,
esperando sermos representados.