The Arrival ~ by Naomi Walker

— Nunca pensei que este lugar existisse de verdade… – comentou Panfílio com alguém que caminhava ao seu lado.
— Que lugar? Disse o outro, ainda meio desconcertado.
— O purgatório.
— Purgatório? Como sabe que estamos no purgatório?
— Ora, basta olhar ao redor. Não é a Terra, não é o Inferno, tampouco é o Paraíso. Parece mais um não-lugar. Um nível intermédio entre mundos…
— Quer dizer então que… morremos?
(Silêncio).

Panfílio era um soldado que fora morto em batalha. Como todos os mortos, ao partirem de seus corpos, ainda que deixem para trás os negócios terrenos, carregam suas memórias terrenas com a matéria não-corpórea – o que alguns chamam de alma. O que não é comum acontecer, embora raramente aconteça, é a matéria não-corpórea ou alma carregar lembranças de encarnações passadas para a matéria corpórea ou corpo seguinte, no processo de re-encarnação. Quando isso acontece, ainda que o corpo não se lembre das experiências de encarnações passadas, basta a memória ser estimulada por médios ou parapsicólogos nas cada vez mais populares “regressões”, que estas experiências vêem à tona, o que pode ser um grande equívoco!

Um parênteses: já que disso se tratou, convém esclarecer e não confundir esta regressão com o conceito de anamnese, que refere-se à lembrança do conhecimento inato adquirido antes do nascimento (Mênon, Fédon e Fedro que o digam). Essa regressão da qual falamos é o fenômeno parapsíquico também conhecido como retrocognição, regressão de memória ou regressão a vidas passadas, que alega ajudar o indivíduo a lembrar de lugares, fatos ou pessoas relativos a experiências passadas, sejam de vidas passadas ou períodos entre vidas, onde a matéria corpórea ainda não tenha se (re)materializado.

Tal fenômeno pode ocorrer espontaneamente ou por indução, e se induzido, a técnica usada é a hipnose (do grego hipnos = sono + latim osis = ação ou processo), na tentativa de estimular a pessoa a acessar essas memórias. Embora muitos considerem esta prática uma pseudociência, desacreditada pela comunidade médica, muitos acreditam que com as técnicas corretas é possível acessar fatos ocorridos durante diferente períodos da vida, como a infância ou a vida intra-uterina e até mesmo vivências prévias da matéria não-corpórea!

Voltando a Panfílio, ou à matéria não-corpórea que era Panfílio antes da desencarnação, após ter deixado o corpo viajou com outras almas até chegar a este lugar, que chamou de Purgatório. De onde se vê, são duas aberturas contíguas. No espaço entre elas presidiam juízes que, depois de se pronunciarem, decidiam para onde se encaminhariam as almas. Algumas seguiam para a abertura da direita, que subia ao Paraíso, outros seguiam para a da esquerda, que descia à Terra. Não havia uma abertura para o Inferno.

— Eu sabia! Exclamou Panfílio, conforme caminhava em direção aos juízes. O Inferno não existe!
— O Inferno é a própria Terra meu amigo! Comentou o outro que caminhava ao lado de Panfílio.

Todas as almas que ali estavam caminhavam em pares. Embora parecesse que tinham acabado de chegar da Terra, muitas pareciam vir de uma longa travessia, e tinham uma aparência mais suja, imunda mesmo. Outras chegavam mais vibrantes, vigorosas e limpas. Umas contavam experiências maravilhosas e visões de indescritível beleza. Outras gemiam e choravam, recordando sofrimentos e dores de viagens passadas. Todas caminhavam, lentamente, em direção aos juízes, lado a lado, passo a passo. A seleção era rápida, não chegava a causar aglomerações; as almas avançavam a passos lentos. O protocolo regia que cada alma pagasse sucessivamente todas as injustiças cometidas durante a estadia terrena, e cada injustiça era paga em termos de… anos; muitos anos de vida terrena! Os atos justos eram também recompensados na mesma moeda, anos, porém ao inverso – reduzindo os anos terrenos.

Apesar de o número de anos atribuídos serem díspares entre os diferentes juízes, era mais ou menos consensual que cada pena era paga em períodos de cem anos, com excepções para crimes hediondos, em que as penas eram ainda maiores. Apenas eram dispensadas do regresso à Terra as almas que se curassem da sua maldade.

As almas, antes de regressarem à vida terrena, passavam pelas Moiras, as filhas de dona Necessidade, domadora dos Homens e dos Deuses. Láquesis, Cloto e Átropos, as três irmãs, três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os seres humanos. Em seu tecer determinístico, o tear utilizado para tecer os fios que iriam conduzir o destino de todos, era chamado de A Roda da Fortuna, cujas voltas posicionam o fio em sua parte mais desejável, o topo, ou menos privilegiada, o fundo, o que explica bem os períodos de boa ou má sorte dos humanos…

Quando Panfílio lá chegou junto com outras almas, viu que uma luz brilhava e se estendia em curva pelo céu, até tocar novamente a terra. Parecia um arco-íris, só que mais brilhante e mais pura. Ao aproximarem-se, perceberam no meio da luz, pendentes do céu, as extremidades das suas cadeias, que eram esféricas. Essa luz praticamente segurava todo o firmamento na sua revolução!

***
o fuso girava nos joelhos de uma das Moiras, e no cimo de cada um dos 8 círculos havia uma Sereia que com o círculo girava, e emitia um som uníssono, uma única nota musical. Todas juntas resultava num acorde de uma única escala. Mais três mulheres estavam sentadas em círculo, cada uma em seu trono. Eram as filhas da Sra. Necessidade, as Parcas, vestidas de branco, com grinaldas na cabeça – Láquesis, Cloto e Átropos, que cantavam ao som da melodia das Sereias, Láquesis, representando o passado, Cloto o presente, e Átropos o futuro. Cloto, tocando com a mão direita no fuso, ajudava a fazer girar o círculo exterior, de tempos a tempos; Átropos, com a mão esquerda, procedia do mesmo modo com os círculos interiores; e Láquesis tocava sucessivamente nuns e noutros com cada uma das mãos.

Assim que chegaram, tiveram logo de ir junto de Láquesis. Primeiro, um profeta dispô-los por ordem. Seguidamente, pegou em lotes e modelos de vidas que estavam no colo de Láquesis, subiu a um estrado elevado e disse:

Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. “Almas efémeras, vai começar outro período portador da morte para a raça humana. Não é um génio que vos escolherá, mas vós que escolhereis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor; cada um a terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou a desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. O deus é isento de culpa”.

Então, um mensageiro dos deuses pegou em lotes e modelos de vida e dispô-los para as almas escolherem, pois iria começar outro período portador de morte (tempo de vida humana). Havia destinos para todas as espécies, mas destas escolhas resultavam imensas armadilhas. O essencial era escolher a fim de não cair na ganância da tirania e da riqueza, evitar os excessos na vida mundana e optar sempre com muita prudência. Só assim um humano alcançaria a felicidade suprema, não esquecendo que a escolha deveria ser dirigida pela procura da virtude, pois a responsabilidade pesaria apenas sobre quem escolhe.

Depois as almas foram conduzidas para a planura do rio Lete e, junto do rio Amelas, todas foram forçadas a beber uma certa quantidade de água, esquecendo tudo, umas mais que as outras, conforme bebiam mais ou menos. As que irreflectidamente bebiam mais, esqueciam demais, eram os tolos e as que bebiam menos eram os sábios.

Troa o trovão e um tremor de terra, era a hora das almas irem ao encontro dos seus destinos a fim de nascerem cintilando como estrelas, e Er impedido de beber acordou divinamente na pira funerária.

Este é um resumo possível do mito de Er, não dispensando a leitura integral, não só do mito, mas também d’A República.

As interpretações referentes ao método não divergem muito, já que parece fica bem claro que a punição é voltar a re-encarnar em uma matéria corpórea e ter que se subjugar a mais um período de existência terrena.